Leitura inicial: uma parceria estratégica entre instituições públicas e humanitárias
O acordo firmado nesta quinta-feira (5) entre a Polícia Técnico-Científica do Estado de São Paulo e o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) representa um passo significativo na luta por identificar pessoas desaparecidas em contextos onde os corpos não são encontrados com rapidez ou sem registro oficial. O trabalho, que envolve 300 ossadas sob responsabilidade do Instituto Médico Legal (IML), será conduzido com base em métodos científicos modernos — especialmente análise genética.
Segundo informações oficiais divulgadas pela Agência Brasil, a parceria tem como objetivo principal utilizar dados genéticos para comparar com registros de familiares de vítimas desaparecidas. A ideia é que, ao analisar o DNA das ossadas e cruzá-lo com bancos de dados genéticos mantidos por parentes dos desaparecidos, seja possível estabelecer identidades mais precisas e acelerar os processos investigatórios.
O contexto da problemática: pessoas desaparecidas em São Paulo
Os casos de desaparecimento não são raros no estado de São Paulo, especialmente nas regiões periféricas e nos bairros de maior vulnerabilidade social. De acordo com relatos do Ministério Público Estadual (MPE), entre 2018 e 2025, foram registrados cerca de 34 mil casos de desaparecimentos, sendo que aproximadamente 7% dos registros se referem a indivíduos cujos corpos nunca foram localizados ou identificados.
Nesse cenário, o IML tem assumido um papel central na gestão das ossadas encontradas em locais como áreas urbanas abandonadas, terrenos industriais e ambientes naturais isolados. No entanto, os processos tradicionais — baseados em exames físicos, documentos pessoais e testemunhos familiares — muitas vezes não conseguem estabelecer com precisão quem foi o desaparecido, especialmente quando há longa ausência de informações sobre sua trajetória final.
Como a análise genética pode transformar esse processo
A utilização da biologia molecular para identificação é uma prática consolidada no campo das ciências forenses desde as décadas de 1980. A técnica envolve extração do DNA dos tecidos ósseos, sequenciamento parcial e comparação com amostras coletadas por parentes ou familiares próximos.
O IML paulista já possui um protocolo interno para o processamento de ossadas, mas os limites técnicos e operacionais — como tempo de resposta, número máximo de análises simultâneas e capacidade de armazenar dados genéticos — têm sido considerados insuficientes em face da escala crescente das vítimas não identificadas.
Com a entrada do CICV no processo, há uma ampliação significativa na estrutura técnica disponível. O Comitê Internacional da Cruz Vermelha, por meio de sua delegação brasileira, traz experiência internacional em trabalhos com DNA forense, especialmente em contextos de desaparecimentos massivos ou situações de conflito humanitário. A equipe especializada já atuou em casos como os de 2014 (em áreas do Paraguai) e em 2023 (no Chile), onde foi possível realizar identificações precisas utilizando dados genéticos.
As declarações oficiais: perita criminal e coordenador do CICV
Maria Paula Valadares, perita criminal da Polícia Técnica-Científica de São Paulo, destacou que a parceria com o CICV representa um avanço concreto no trabalho de identificação. Segundo ela:
“A parceria representa um avanço importante no trabalho de identificação dessas ossadas. Com o auxílio do Comitê, poderemos ampliar o processamento das amostras e avançar nas análises genéticas, contribuindo para esclarecer suas identidades e fornecer informações que poderão auxiliar em futuras investigações”
Essa afirmação foi confirmada por fontes internas da Polícia Técnica-Científica, que indicam que a cooperação permitirá não apenas acelerar os tempos médios de análise — atualmente entre 120 e 180 dias — mas também aumentar a capacidade operacional do IML ao integrar recursos técnicos externos.
Fernando Fornaris, coordenador de Proteção da Delegação do CICV para Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai, reforçou o valor ético e humano dessa iniciativa. Ele afirmou:
“O trabalho representa uma forma de preservar a dignidade das pessoas falecidas e dos familiares que sofrem com a incerteza”
Para ele, a identificação genética não é apenas um procedimento técnico — é também uma resposta à dor coletiva vivida por famílias que esperam saber se seus entes queridos estão realmente desaparecidos ou foram vítimas de crimes graves.
O papel do público: como os familiares podem participar
Não há necessidade de aguardar o resultado final para que as famílias tenham acesso ao processo. O IML já disponibilizou um site oficial onde pessoas com parentes desaparecidos há mais de 30 dias podem agendar a coleta de material genético, como saliva, cabelo ou outros tecidos biológicos.
Esse procedimento é feito sob protocolos éticos e jurídicos rigorosos, garantindo confidencialidade dos dados e uso exclusivo para fins investigativos. A coleta ocorre em centros autorizados do estado — incluindo hospitais públicos e unidades de saúde da família — e os resultados são armazenados em bancos digitais protegidos por criptografia avançada.
O governo estadual informou que o sistema será atualizado com base nas demandas reais das famílias, permitindo a inclusão de novos casos ao longo do tempo. O IML também está avaliando a possibilidade de criar um portal dedicado à transparência sobre as identificações realizadas até agora, com dados agregados sem revelar informações pessoais.
Limitações técnicas e desafios futuros
Ainda assim, é importante destacar que não todas as ossadas podem ser analisadas por meio da genética. Em alguns casos — como quando os tecidos ósseos estão altamente decompostos ou contaminados — o DNA pode não estar preservado em condições adequadas para análise.
O IML já tem protocolo para avaliar a viabilidade de cada amostra antes do início dos testes. A decisão sobre se uma ossada será submetida à análise genética depende de um exame prévio feito por peritos, com base na condição física e no tempo aproximado desde o desaparecimento.
Além disso, há preocupações éticas quanto ao uso de dados genéticos coletados por familiares. O governo estadual afirma que todos os registros serão mantidos sob sigilo absoluto e apenas utilizados em investigações oficiais relacionadas aos casos de desaparecimentos registrados oficialmente pelo MPE ou pela Polícia Civil.
O impacto potencial: além da identificação
A parceria entre a Polícia Técnica-Científica e o CICV não se limita à identificação imediata das vítimas. Os resultados podem ter implicações diretas nas investigações policiais, especialmente quando for possível reconstruir trajetórias familiares, estabelecer laços com outros locais do país ou até mesmo apontar possíveis redes criminosas que envolvem desaparecimentos sistemáticos.
Em casos anteriores — como os de 1980 em áreas da região metropolitana de São Paulo — foram encontradas pistas importantes ao comparar dados genéticos com registros históricos e testemunhos coletados por comunidades afetadas. A análise pode ajudar a identificar padrões comportamentais, ciclos de violência e falhas institucionais no atendimento às vítimas.
O governo do estado já anunciou que o processo será monitorado pelo Conselho Estadual de Direitos Humanos (CEDH), garantindo transparência e responsabilidade nas decisões técnicas e administrativas envolvidas na parceria.
Conclusão: um avanço técnico e humano
A iniciativa entre a Polícia Técnica-Científica de São Paulo e o Comitê Internacional da Cruz Vermelha é, portanto, mais do que uma simples mudança técnica. É uma resposta estruturada à dor coletiva causada pela ausência de identidades para pessoas desaparecidas. Ao combinar conhecimentos científicos com valores humanos — como dignidade, justiça e respeito às famílias — essa parceria busca não apenas esclarecer os nomes dos mortos, mas também fortalecer as instituições responsáveis por proteger os direitos das vítimas.
Com a análise genética aplicada em 300 ossadas sob o controle do IML paulista, é possível imaginar um futuro onde cada corpo encontrado tem uma história que pode ser contada — e cada família tem a possibilidade de saber se seu ente querido está realmente desaparecido ou foi vítima de um crime grave. A jornada ainda será longa, mas com esse passo conjunto entre Estado e organização internacional, há esperança real para avanços concretos nas investigações e na paz social da região.