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Mulheres defendem articulação em rede para ampliar participação e combater machismo na justiça

Durante a Conferência Internacional 'Mulheres que Movem a Justiça', realizada em Brasília até sexta-feira (6), comunicadoras, advogadas e jornalistas reforçaram a importância da construção de redes de apoio entre mulheres como estratégia para enfrentar o machismo, desinformação e falta de representação no poder político e jurídico do Brasil.

Mulheres defendem articulação em rede para ampliar participação e combater machismo na justiça

Brasília, 05/11/2026 — Na conferência internacional Mulheres que Movem a Justiça, realizada nos dias 1º a 6 de novembro em Brasília, profissionais da área de comunicação, direito e cultura defendem a articulação de redes de apoio entre mulheres como mecanismo eficaz para ampliar sua participação nos espaços de poder e combater o machismo estrutural. O evento, com foco na construção de uma justiça mais igualitária no Brasil, reuniu diversas vozes do campo feminino, desde comunicadoras até advogadas e cineastas, que destacaram a importância histórica e contínua das alianças femininas.

O debate central girou ao redor da necessidade de fortalecer ações coletivas, onde as mulheres não apenas se articulam em torno de causas específicas — como direitos trabalhistas ou violência doméstica — mas também assumem papéis ativos dentro dos mecanismos institucionais. Segundo o relato da Agência Brasil, participantes afirmaram que trabalhar em rede é algo que nós, mulheres, sabemos fazer há séculos, sendo uma estratégia de sobrevivência histórica e cultural frente às adversidades sociais.

O 'Lobby do Batom' e os fundamentos históricos da luta feminina no Brasil

No dia 5 de novembro, a presidente da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), Antonia Pellegrino, apresentou um dos pontos centrais do evento: o papel histórico das mulheres na construção da democracia brasileira. Ela destacou as conquistas obtidas durante a Assembleia Nacional Constituinte de 1987-1988, período em que se formou uma aliança suprapartidária entre deputadas federais e senadoras — conhecida como o 'lobby do batom'.

Segundo Pellegrino, esse grupo foi composto por poucas mulheres que, ao se organizar politicamente, conseguiram garantir direitos fundamentais para o país atual. O resultado foi absoluto: "Um grupo que se organizou para agir politicamente. O resultado do que elas fizeram foi absolutamente extraordinário porque boa parte dos direitos que nós temos até hoje foi garantido por essas poucas mulheres", afirmou a presidente da EBC.

Ou seja, os avanços na legislação brasileira — como a igualdade de gênero no acesso à política e aos cargos públicos — não são meros acidentes históricos; eles foram construídos com base em uma mobilização coletiva feminina que superou barreiras partidárias e sociais. A referência ao 'lobby do batom' é um símbolo cultural que remete à luta direta das mulheres pelo espaço político, reforçando o argumento de que a articulação entre mulheres tem raízes profundas e verificáveis.

Desinformação e os desafios da comunicação pública

O ambiente midiático brasileiro foi citado como alvo frequente de estratégias governamentais radicais voltadas para a disseminação de mensagens misóginas ou distorcidas. Segundo as participantes, a comunicação pública — incluindo redes sociais, jornalismo institucional e mídias digitais — é frequentemente usada por grupos extremistas com o objetivo de promover desinformações que atacam diretamente a imagem feminina e a autonomia das mulheres.

"A comunicação pública tem sido alvo frequente de governos extremistas", afirmou uma das comunicadoras presentes no evento. A preocupação se ampliou quando foi destacado que os profissionais da produção midiática têm um papel ético e estratégico: não apenas transmitir informações, mas também combater mensagens misóginas, especialmente aquelas que são utilizadas para justificar violência ou estigmatizar as mulheres em contextos sociais e políticos.

O projeto 'Seja a princesa que salva a si mesma' e o combate à misoginia cultural

A advogada e influenciadora Sara Gabriela, responsável pelo projeto de comunicação "Seja a princesa que salva a si mesma", apresentou uma reflexão sobre como a cultura brasileira tem internalizado formas de machismo. O projeto nasceu em 2019 com base na experiência direta dela ao atender vítimas de violência doméstica em comunidades do Estado de Goiás.

"Eu precisava me comunicar e tinha plena consciência que essa mudança só pode vir através de uma mudança cultural", afirmou. A iniciativa visa desmistificar o papel da mulher no ambiente familiar e social, promovendo um diálogo mais claro entre as mulheres e suas próprias condições sociais — especialmente aquelas relacionadas à autonomia, ao trabalho e aos direitos individuais.

Sara Gabriela reforçou a ideia de que o ordenamento jurídico brasileiro é avançado em termos estruturais, mas que sua eficácia depende do uso consciente das informações. "Eu entendo que a informação não deve ser suavizada", pontua, destacando que a apresentação de dados objetivos sobre violência doméstica ou desigualdades salariais pode servir como base para mudar atitudes coletivas.

Reconhecimento dos direitos no casamento e na família

A advogada Miriane Ferreira, com mais de dois milhões de seguidores no Instagram, participou da mesa de debates com foco em temas jurídicos acessíveis ao público feminino. Ela destaca um ponto crítico: muitas mulheres deixam de reivindicar seus direitos sobre o patrimônio construído durante o casamento por não terem exercido atividade profissional fora do lar — mesmo que tenham desempenhado funções essenciais como cuidadores familiares ou gestoras domésticas.

"As mulheres precisam dessa solidariedade uma das outras para mostrar o poder que têm", afirmou Miriane Ferreira, lembrando que a ausência de reconhecimento jurídico desses trabalhos gera desigualdades estruturais. Ela ensina questões fundamentais de direito no contexto de divórcios e separações, destacando que as mulheres devem ser educadas sobre os seus próprios direitos, especialmente em situações onde não há apoio institucional claro.

O papel da denúncia judicial e a falta de respeito ao processo

A advogada Mayra Cotta, produtora e criadora da série "Afiadas" exibida na TV Brasil — uma produção que retrata o dia-a-dia de manicures em Brasília com foco nos temas do cotidiano feminino — também participou do debate. A série aborda questões como política familiar, cuidados infantis e desigualdades sociais, mostrando a vida das mulheres no ambiente urbano brasileiro.

Mayra Cotta afirmou que as mulheres estão cada vez mais denunciando violações — mas que essas denúncias são frequentemente massacradas pelo Judiciário. Ela lamenta que "tem juízes passando pano para assediadores e abusadores todos os dias", destacando uma falha estrutural na forma como o sistema judicial trata casos de violência contra mulheres. A ausência de sensibilidade ou formação específica sobre temas de gênero compromete a credibilidade do processo jurídico em si mesmo.

O poder da narrativa: histórias como ferramenta de transformação social

A cineasta carioca Fernanda Amim, diretora do documentário Reconhecidos, reforçou que é primordial abrir espaços para as vozes femininas por meio da produção de histórias autênticas e verdadeiras. O filme aborda o racismo estrutural no sistema de justiça criminal brasileiro — especialmente com base na falha do uso do reconhecimento fotográfico dos suspeitos, um processo que muitas vezes leva a erros graves em investigações.

Fernanda Amim argumenta que a narrativa tem poder transformador: "Abrir espaços por intermédio de histórias não apenas informa, mas também constrói identidades coletivas". Através desse tipo de conteúdo, as mulheres conseguem se ver refletidas nos meios de comunicação e, assim, desenvolverem uma sensação de pertencimento e força política.

As redes como estratégia para ocupar o espaço público

A jornalista Thayse Xavier, fundadora da plataforma Elas trabalham, destacou que a iniciativa busca estimular a participação feminina em espaços políticos e institucionais. Em um exemplo concreto, ela relatou ter atuado com mensagens permanentes no mês anterior para incentivar as mulheres a votarem — mostrando que o engajamento político não depende apenas do sistema eleitoral, mas também de campanhas culturais e comunicativas.

"Mulheres fora do espaço de poder devem apoiar mulheres que estão nesses lugares", afirmou Thayse Xavier. Essa ideia é central: a articulação entre mulheres não se limita ao debate teórico; ela deve ser prática, diária e integrada à vida cotidiana das comunidades. A plataforma já atua com iniciativas diretas em escolas, centros comunitários e redes sociais para promover o engajamento feminino nas esferas públicas.

O futuro da justiça brasileira e as perspectivas de representação

Em um ponto estratégico do evento, Antonia Pellegrino citou uma projeção oficial sobre os cargos vitalícios no Judiciário: pelo menos 40% dos cargos serão nomeados na próxima década. Essa informação é relevante porque abre espaço real para que mulheres ocupem posições de liderança dentro do sistema jurídico — especialmente em áreas como direito penal, família ou trabalho.

A possibilidade de aumento significativo desses postos pode ser vista como um marco histórico. Se as políticas públicas forem alinhadas com a inclusão feminina e o fortalecimento das redes de apoio entre profissionais da área, os avanços podem se tornar mais rápidos e sustentáveis. Ainda assim, Pellegrino ressaltou: "É preciso não apenas ter mais representantes, mas também garantir que essas mulheres tenham acesso à formação, ao suporte institucional e ao reconhecimento público".

O evento encerrou com uma mensagem clara: a luta contra o machismo é um processo contínuo — que exige consciência coletiva, articulação política e investimentos em educação jurídica e cultural para as mulheres. As redes de apoio entre profissionais da comunicação, direito e arte são apresentadas como ferramentas eficazes, baseadas tanto na experiência histórica quanto nas realidades atuais do Brasil.

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